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  :: 06 de Dezembro de 2007 ::
  Durão Barroso e o Iraque
 


(artigo publicado no "Jornal de Leiria" na edição de 6 de Dezembro de 2007)

 

Durão Barroso deu recentemente uma entrevista onde tentou sacudir a água do capote em relação às suas responsabilidades em arrastar Portugal para o pelotão da frente dos apoiantes da guerra do Iraque em 2003.

É importante desmontar os argumentos de Durão Barroso, não apenas com o objectivo de repor a verdade histórica, mas acima de tudo para impedir que Barroso consiga distanciar-se de uma aventura que teve consequências desastrosas para o Médio Oriente e para o mundo.

O primeiro argumento de Barroso é escudar-se nos serviços secretos, dizendo que "houve informações que me foram dadas ... que não correspondiam à verdade".  Mas os serviços de informação servem para informar as decisões dos políticos - não para as substituir. É verdade que os serviços secretos de muitos países acreditavam que o Iraque tinha armas de destruição maciça (ADM). Mas os líderes de muitos desses países não decidiram ir para a guerra, e muito menos organizar uma Cimeira que marcava o princípio do fim do processo diplomático. E se o Iraque tivesse mesmo ADM? Porque é que atacar um país supostamente armado até aos dentes de ADM, com a capacidade de atingir Londres "num espaço de 45 minutos", foi o método escolhido? Alguém já pensou em atacar a Coreia do Norte desde que o regime assumiu ter bombas nucleares? Não - ninguém torceu o braço a Durão, ninguém o enganou, ninguém o obrigou a nada: ele quis aparecer na fotografia com Bush, Blair e Aznar. E apareceu mesmo.

O segundo argumento de Durão é diminuir o papel de Portugal e, por consequência, a importância da decisão de apoiar a guerra. Ele explica que "nós realizámos a cimeira dos Açores porque nos foi pedido pelos nosso aliados e amigos. Os Estados Unidos, o Reino Unido... Espanha. Sobretudo Espanha." Ficamos sem perceber se o então Primeiro-Ministro entrou no 'clube da guerra' porque as informações que tinha assim o justificavam (lembram-se? as tais 'informações erradas'?), ou se Durão decidiu ser apenas moço de recados de Washington, Londres e Madrid. Lembro-me de ter uma conversa com Durão Barroso em Fevereiro de 2003 (semanas antes da guerra ter começado) em que ele utilizava o argumento da Espanha de Aznar. Mas a versão nessa altura era outra: era que os interesses estratégicos de Portugal não consentiam a ultrapassagem pela Espanha no zelo aliado junto dos americanos. Tenho notas de lhe ter observado: ”Mas Portugal é independente e não província de Castela, porque nunca teve medo de seguir o seu próprio caminho e de, justamente, se diferenciar dos vizinhos espanhóis!...."

O terceiro e último argumento de Barroso consiste em dizer que apesar das inúmeras vidas perdidas no Iraque, apesar do caos no Médio Oriente (para o qual a invasão de 2003 contribuiu) e apesar da total ausência de escrúpulos com que ele, Aznar e Blair dividiram a Europa, apesar disto tudo, "do ponto de vista de Portugal, não houve nada a lamentar". Durão justifica esta afirmação extraordinária com a sua própria eleição para Presidente da Comissão Europeia. Infelizmente para Barroso, em Bruxelas não é segredo para ninguém que ele chegou onde chegou porque Tony Blair o “inventou” justamente porque ele se perfilava como um Presidente às ordens, fraco - no fundo, o mínimo denominador comum perante outros candidatos com maior estatura. E isso não abona especialmente em favor de Portugal. E muito menos em favor da política portuguesa em relação ao Iraque.

Resumindo, Barroso apoiou Bush porque quis; é feio esconder-se debaixo das saias de outros países para justificar uma decisão tão importante como a de ir para a guerra; e o facto de Barroso ser Presidente da Comissão não compensa de longe as consequências nefastas da guerra do Iraque, para Portugal e para o mundo.

Eu compreendo Durão Barroso. Quer limpar o nome para facilitar futuras escolhas de carreira, especialmente em Portugal. Mas com a minha amnésia não conta.